MOSAICO ENQUANTO INCENTIVADOR TERAPÊUTICO

Heloisa Lima Roedel
psicóloga

            Em minha experiência prática como professora da técnica de mosaico contemporâneo, aliada ao meu percurso pela faculdade de Psicologia, posso observar que alguns de meus alunos chegam até o atelier para se inscreverem no curso de mosaico indicados por médicos ou terapeutas.

Essas pessoas, apresentando traços depressivos vêm à procura de alguma ocupação”. Num primeiro momento elas não estão muito preocupadas com a aprendizagem rigorosa da técnica, nem com o resultado final que irão alcançar. Utilizam essas aulas como uma prescrição médica. Querem movimentar seus corpos, suas mãos, tentando acreditar que isso irá amenizar a enxurrada de pensamentos que vem acompanhar todo estado depressivo.

A “aprendizagem” do mosaico muito bem se encaixa aí, pois não é necessário uma aptidão nata para executa-lo. Os cacos e fragmentos, que à princípio nada tem a ver entre si, são moldados para se encaixar harmonicamente, formando uma unidade final. A produção é feita passo a passo, peça por peça, como na construção de um quebra-cabeça, onde cada peça deve ser trabalhada para encontrar seu espaço adequado.

O indivíduo, portanto, fragmentado, fragilizado, perdido entre pensamentos mórbidos, se identifica com a técnica pura de ir escolhendo, moldando e montando seu mosaico de cacos e, talvez, de idéias. Nesse momento, a técnica que estava sendo aprendida, começa a ser propiciadora de um processo criativo. Indivíduos cuja mente estava às voltas com pensamentos e sensações desagradáveis, corpos cansados e pesados, se vêem agora portadores de mãos produtoras que de alguma forma invadem esses pensamentos ruins e momentaneamente lhes dão uma sensação de bem-estar.

As pessoas que então tinham chegado querendo simplesmente ocupar seu tempo ou obedecer uma indicação médica, se deparam com a possibilidade de uma criação. Algo construído pedacinho por pedacinho, projetado e executado. Isso começa a preencher, além de suas mãos, sua alma também.

A configuração de algo construído é sempre prazerosa. Com o objeto acabado, vem sempre algo a ele ligado. A vontade de presentear alguém com ele, de admira-lo, de querer fazer outro. É sempre um movimento em direção a algum desejo.

Com isso, pude observar que as pessoas que por mim passaram portadoras de quadros depressivos, freqüentaram as aulas, aprenderam a técnica e conseguiram produzir tanto um objeto final quanto uma sensação prazerosa de movimento em direção à vida. Esse é o processo criativo.


MOSAICO PARA GRUPOS ESPECIAIS

Parto novamente da prática. Essa prática que teve seu início dentro de instituições ligadas à saúde mental, de escolas especializadas, do meu próprio consultório. Hoje ela se estende dentro de meu atelier ligada ao processo de se fazer mosaico. Porém tento colorir essa técnica, buscando no outro a fascinante experiência que o mosaico proporciona, quando essa mesma técnica é colocada a serviço do processo criativo.

Algumas vezes encontrei dentro do meu grupo de “aprendizes” pessoas portadoras da  Síndrome de Down ou de alguma deficiência neurológica. Comecei então a estruturar um curso que fosse para elas o mais enriquecedor possível, já que a técnica poderia ser facilmente adaptada quando isso se fizesse necessário.

Os materiais utilizados no mosaico são, na maioria das vezes, rígidos (tesselas, base onde é feita a aplicação, rejunte depois de seco), porém eles são infinitamente flexíveis quando se trata de um veículo de expressão.

Enfim, os materiais são apresentados. Pode-se usar ferramentas ou usar materiais de maneira a se trabalhar com cores, formas ou texturas. O mosaico não tem, necessariamente, um compromisso com a forma final. O desenho a ser seguido é sempre uma referência e o limite fica a cargo da base onde ele será aplicado. Portanto, sua leitura não exige que o aluno tenha uma habilidade anterior.

O interessante é observar que o trabalho de unir fragmentos para formar um todo, que pode ser visto como algo repetitivo, é sentido de uma forma bastante satisfatória, pois o processo criativo nunca é repetitivo, ele é individual. Cada sujeito, dentro do que lhe é possível, estabelece uma troca com sua produção, que também é única.

Às vezes ocorre que alguns alunos queiram fazer um trabalho igual ao do seu colega. Escolhem então, o mesmo material, as mesmas cores, etc. Qual o espanto quando eles não conseguem fazer com que seu trabalho saia igual ao do outro. Isso lhes causa um certo incômodo, porém é uma experiência diferente. Nesse momento é que a capacidade de criar fica mais evidente. Eles defrontam com a produção de algo que não é semelhante à do outro. Algo não é reprodução e sim, produção. Alguns se agitam, outros se entusiasmam... Enfim, há uma resposta para aquele trabalho feito.

E é nesse instante que “aluno” e “instrutor” se identificam. Ambos reconhecem algo que é único: a capacidade individual de cada sujeito.